27 de out. de 2010

Sobre o fim

   Chegará o dia em que você se desinteressará por mim. Nesse dia, meu rosto sumirá da sua memória e meu nome não fará diferença aos seus ouvidos. Talvez até os fira, como uma melodia desafinada ou um barulho incômodo, e faça você levar as mãos aos ouvidos ao ouvir falar de mim. Você vai passar pelos lugares onde vivemos risos e lágrimas e nada vai chamar sua atenção, serão apenas bancos de praça e mesas de restaurante. E nem mesmo as folhas amareladas na calçada ou a brisa salgada da praia farão com que eu apareça nos seus pensamentos.
   Chegará o dia em que você vai acordar e eu não estarei mais ao seu lado na cama. Você abrirá o armário da cozinha e colocará apenas um prato e uma xícara na mesa. E quando você estiver mexendo o café, não sentirá a minha falta na cadeira em frente, lendo o jornal ou pedindo para que você passe manteiga em um pedaço de pão.E quando você for trabalhar, não vai se importar se eu não lhe der um beijo no portão de casa ou no ponto de ônibus, desejando-lhe um bom dia no serviço.
   Chegará o dia em que você vai sair com os seus amigos e nem vai notar que meu riso não está entre o das outras pessoas na mesa. Você vai pedir ao garçom que lhe traga apenas um chopp e não dois, porque eu não estarei ao seu lado para brindar consigo. E quando um daqueles meninos pobres de terno roto lhe abordar, pedindo-lhe que compre uma rosa, você vai sorrir e dizer que comprará em uma outra ocasião, e nem vai atinar para o fato de eu não estar ao seu lado para receber ou agradecer pelo presente.
   Quando você chegar em casa e tirar os sapatos à beira da cama, deitar-se-á sem sentir saudades dos meus dedos afagando seus cabelos para que você pegue no sono. E nesse dia, quando você acordar no meio da madrugada mordendo o canto do lábio inferior, nem vai se lembrar que um dia meu corpo já esteve ao lado do seu, ansioso pela sua febre, seu desejo e sua satisfação. Até que esse dia chegue, tudo que peço é que você me ame o máximo que você puder.

Márcio Silva

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